
Hoje a imagem, logo o texto.
Em toda sua dor, ache sua força. Da tua tristeza faça a força para buscar o melhor. Das frustrações para com os outros, encontre a razão de ser uma boa pessoa. Enfrente com dignidade o que te for dado, isso é ser grande.





Ontem, enquanto a noite era de silencio e apenas o vento se ouvia, ontem enquanto tudo era gélido lá fora, e eu estava encolhido abaixo de uma coberta, enquanto a Lua iluminava tudo, de tão longe, e tão fria, enquanto as nuvens se faziam e desmoronavam sobre mim existindo e não existindo... Eu sonhei. Sonhei com um mundo que era tudo menos complexo, lá não havia palavras engolidas a machucar por dentro, lá não havia mal-entendidos, e nem confusões, não havia nada que não precisasse haver. E nesta calma, nesta paz tão simples, eu estava ao seu lado, não havia mais pessoas pois tudo passava a acontecer entre nós, e não havia palavras desnecessárias, como vemos a nossa volta, tudo era apenas sentido e se fosse importante o outro saberia, por essa mágica que existe de só acontecer o que é preciso que se aconteça. Nós fazíamos Yoga, e tocava música clássica, cada nota era um suspiro agudo de uma alma que quer viver, e nós sentíamos a dor de um corpo que vive, cada agudo da soprano no silêncio daquela noite apenas sonhada era perigoso demais, tanta beleza poderia ser-nos mortífera, mas não tínhamos medo, e então eu me encostava a ti, e sentia o teu calor, eu então te sentia estendendo-se pelo meu corpo, vales e montanhas a perder-se de vista, eu então me perdia nestas paisagens tão misteriosas, tão encantadoras. Havia o seu sorriso, havia o seu peito e eu vi-te pela luz azulada da Lua, desta vez não mais longe, mas perto, perto como a distancia de um abraço, seu peito apenas mostrado, sem mais, ao alcance de meus dedos, e então havia o encontro de dois lábios, e havia alegria nisso, por um instante não havia tristeza, por um instante viver não era algo pesado e difícil, e havia esperança, por um instante... Eu abri meus olhos, e me vi só, no escuro, a Lua lá fora, e então vi que meus pés e minhas mãos estavam gelados, olhei então para meus dedos, apenas para descobri-los vazios. Nada, nada alem do vento lá fora, e de um coração achatado a bater no peito, e a música clássica tocava, mas era como encher um saco sem fundo, tudo, tudo era vento, e a mim só restava rezar...

Hoje eu tive um sonho. Sonhei com uma tarde e com um campo, a tarde tinha um Sol forte e brilhante, era uma dessas tardes amarelas onde a única vontade que temos é de ficar em um banco, numa praça, numa rua, num lugar qualquer apenas a observar o como o mundo é maravilhoso em si mesmo... Não havia nuvens no céu. Não havia o risco de, de repente, o Sol cair e tornar-se noite. Era sonho. O campo era de um verde como apenas a matéria perfeita dos sonhos permite existir, era uma grama, mas não era dessa gramas perfeitas, era grama de verdade, com insetos, com substancias desconhecidas escondidas entre as folhas, como ervas daninhas, e até formigas. Uma brisa leve soprava, havia bandeiras, amarelas, laranjas, douradas, todas tremulando vagarosamente com a brisa a soprar, bandeiras como há séculos não vemos. Neste sonho havia pessoas, e nenhuma delas tinha nome, porque elas estavam gastando o seu tempo sendo felizes, então não sobrava tempo para estas pequenas desnecessidades, quando alguém queria chamar o outro, se este não viesse apenas com a alegria do pensamento, bastava então chegar perto dele e levemente tocar seu braço, ou qualquer outra parte do seu corpo, e assim tudo acontecia. As pessoas não se preocupavam com a morte, porque também não havia vida, havia apenas a alegria de se existir e a tarde amarela a nos abençoar. Não havia dor, por mais que as pessoas machucassem-se com espinhos escondidos por entre a grama, com formigas preocupadas com sua casa, ou às vezes torcessem alguma articulação com toda a diversão que ocorria, com os saltos, com as brincadeiras, correndo... Não havia dor, todos se por ventura caíssem, levantavam-se e voltavam ao grupo, apenas a verdade existia. 
Via homens, alguns sem camisa, alguns descalços, com a barba por fazer, alguns apontavam para o céu, alguns deitavam sobre o colo de algum amigo e lá adormeciam, alguns jogavam, alguns se abraçavam, e todos eram felizes. Lá, no sonho, a palavra “certo” não fazia sentido, nem a palavra “errado”, “pecado” então não se poderia nem imaginar o que era, e com isso todas as outras pequenas misérias que advinham destas também não existiam, no meu sonho só existiam palavras como amor, respeito, carinho, felicidade, alegria, afeto, Deus, amigo,paz... Havia mulheres também, algumas nuas, algumas vestidas, algumas fazendo longas tranças com seus cabelos, algumas correndo em grupos sorridentes, algumas distribuíam comidas e bebidas, algumas brincavam com borboletas, e tudo era completamente bonito. A palavra sexo é que lá não dizia nada realmente, tudo era puro, era o que apenas era, não havia valores complexos e parciais, não havia crítica, não havia culpa, não havia medo. Às vezes um rapaz conversa com uma moça, às vezes um gato mia, uma borboleta pousa rapidamente sobre a relva, uma formiga gulosa carrega um farelo de pão muito maior que ela, o grupo inteiro desfaz-se em risos. Alguns homens acordam, abrem os olhos apenas para encontrar paz e alegria, e certificam-se estar em um colo amigo e adormecem novamente, duas mulheres dormem, nuas e abraçadas, há sorriso em seus lábios, e paz. E quando parece que o Sol irá descansar, e que a tarde já começa seu término, então descobre-se com alegria e espanto, que ainda é tão cedo, e que a festa não termina...

E então eu fico feliz com tudo o que eu sonhei... 
Mas é que meus sonhos não fazem sentido. Então alguns me dizem com tamanha praticidade, que não perdem tempo com essas coisas, pois mais faz duas mãos trabalhando do que cem cabeças a sonhar. Outros dizem com muitas feridas no coração, que sonhar é perigoso e que no fim nada disso acontece. Alguns ainda dizem que o sonho é refugio do fraco... Mas acontece que agora que eu conheço o sonho, sei que nada disso me parece verdadeiro, e é então com grande júbilo que descubro homens que pensam como eu, um diz que o sonho é capaz de transformar tudo, outros falam que são os sonhos que movem o mundo, alguns que sonhar é um bálsamo, outros que é um breve refúgio no meio da vida, mas alguns ainda, para minha alegria, concordam que se todos sonhassem como eu sonhei as coisas seriam tão simples, fáceis e belas... Concordam ainda, que se todos sonhassem, as coisas já seriam melhores. Alguns ainda, como eu, sonham novamente, sonham com o dia em que este sonho será realidade...

