Sobre o blog (e mim)...

Um garoto. Uma vida. Uma certeza. Muitas duvidas. Um blog. É isso que de repente se conflue numa desarmonia harmoniosa e vira isso que vês... as palavras são ditas até que cheguemos a uma barreira, a barreira alem do qual não existem mais palavras, apenas nós, Deus e o que é sentido...

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terça-feira, 28 de abril de 2009

Insuperação

Um belo rapaz, põe as mãos no volante, seu carro, corre, uma imagem passa por detrás, tão ràpidamente que sequer posso vê-la, ele está feliz, sorri, seus dentes de marfim, ele diz algo que não posso ouvir, pois estou a devorar o instante, ele diz algo que não posso ouvir pois estou totalmente ludibriado, mas ele não sabe da magia que se passa e continua a falar, sou monossilábico, porque na verdade estou muito ocupado, eu vejo.
Há luz na paisagem, um Sol de três da tarde, e há pasto, e grama, e vida que brota por todo lugar, mesmo onde talvez possa parecer indesejada, mas é fato que a vida brota, eu estou olhando, mas tomo ainda o cuidado de não ser percebido, pois o carinho ainda me assusta um pouco. Olho seus cabelos, claros, castanhos, castanhos claros, e seus olhos amendoados, amadeirados, olham para mim, acredito, para mim, que me vêem, e que sentimento é esse?
Sua pele alva, sua barba, sua juventude tão pulsante, sua ingenuidade, e sua alegria... Então chego nas mãos, talvez as mais belas coisas que eu já tenha visto, brancas, suas unhas roídas, não são bem cuidadas, talvez este seja o seu segredo, ser belo descuidadamente.
Então eis que sei que sou feliz, e que este momento é eterno dentro de mim, durará mais que este Sol, mais que o céu, e as paisagens a correrem com ligeireza, sou d’uma alegria , e que Deus me perdoe se faço a coisa errada, mas é que eu gosto tanto deste carinho com que eu olho que vou fazê-lo ficar pra sempre, assim, pra sempre dentro de mim, enquanto eu durar vou estar olhando para estas mãos e pensando: “Estamos juntos!”, a fome de presença, consegue disfarçar a ausência e fingir felicidade? A fome me devora a dignidade e me oferta a ilusão, que devoro como quem devora uma coisa, a fome ainda é mais forte que o sentido de realidade, e devorar ilusões pode nos fazer um pouco mais de tempo, mas quem não come da ilusão, quando esta lhe é a única oferta, a este talvez tudo se tornará insuportável.
Mas é que a vida! Que ao menos em sonho seja feliz, o que para alguns é tão pouco, para outros é o único refugio onde ainda pode bater um coração, uma caverna que tem a maior de todas as proteções: não precisa de ser verdade.
E alguns anos depois, ao chegar à longínqua terra, um pouco de dinheiro no bolso para viver mais uns dias, uma matrícula em um curso que não me fará feliz, um endereço, e dentro do livro a foto de um amor que eu nunca consegui superar.

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