Sobre o blog (e mim)...

Um garoto. Uma vida. Uma certeza. Muitas duvidas. Um blog. É isso que de repente se conflue numa desarmonia harmoniosa e vira isso que vês... as palavras são ditas até que cheguemos a uma barreira, a barreira alem do qual não existem mais palavras, apenas nós, Deus e o que é sentido...

Alguns dados sobre mim...

sábado, 22 de março de 2008

La Serenissima - Lorena McKennitt

Sábado de Aleluia

E então era sábado de Aleluia, ela parara um pouco atordoada e encostara a cabeça na árvore, não se importava se entrasse sujeira nos seus negros cabelos, isso já não era mais importante, e também tudo o que pudesse acrescentá-la agora seria um sinal, seria uma esperança.
Então era sábado de Aleluia, havia partido a sexta feira santa, mas não levara consigo toda sua tristeza... Havia ainda espalhado pelo ar, nas ruas mais desertas, nos jardins das casas modestas, e até nos quintais, os belos quintais que se escondem atrás de altos muros, havia em tudo isso pulverizada a dor de Cristo, essa dor que murchava um pouco as flores, que secava a luz do Sol, que a enchia com um pouco de reflexão, essa dor estava lá ainda pulverizada em seu coração.
Era sábado de Aleluia, em breve chegaria a Páscoa, e com ela renovavam-se todas as esperanças, chegaria a Páscoa e a vida se encheria de luz, ela se tornaria tão forte que ressuscitaria mesmo sem ter morrido. O domingo de Páscoa seria o dia de luz, o dia da vitória sobre as trevas, e então ela se animava, Cristo havia renascido, e ela então renascia junto, esquecendo de toda dor, e abandonando toda miséria que a cercava.
Sábado de Aleluia, era o dia da vida, todos os dias dela eram sábados de aleluia, de repente ela se via lá, após as quedas do passado, e na esperança de um amanhã melhor... Toda sua vida fora um sábado de Aleluia, fora uma espera, mas, agora e mais do que nunca, ela estava certa, a Páscoa chegaria e finalmente ela veria a redenção. Oh Senhor redima-me! Pensava ela, e enquanto ela pensava, a dores da sexta se transformavam dentro dela, as gotas de sangue caídas da cruz, eram agora água sendo regada sobre um jardim de girassóis, e só cabia a ela deixá-los ou não crescer. E essa resposta também só chegaria com a Páscoa...

domingo, 16 de março de 2008

Flora

De repente sentia-me leve... Tão leve quanto o perfume no ar da tarde primaveril... Estava tão leve que podia flutuar com tanto amor divino depositado em mim, tão leve que poderia dizer que havia tomado chá com Flora, sob o escaldante Sol de primavera! Flora havia pego minhas mãos e sussurado em meus ouvidos tudo de bom que estava por vir, então me sentia feliz, eu que sou filho de Selene, a deusa da Lua, sou parte de mim, trevas e mistério, de repente sentia-me claro e simples, de repente havia abandonado todo o meu lado humano e havia passado por tudo que é físico, de repente era tão metafísico que pairava acima das luzes, acima do Sol e de todos os sentimentos... Tudo estava tão perfeito que luzes surgiam por entre as flores, banhadas de perfumes e alegrias, e na áurea tarde onde por entre rosas, jasmins e hibiscos, minha alma encontrou a paz que à muito não tocava... Então Héstia me trouxe amor, e Flora seguiu de maõs dadas comigo por entre meu caminho, as vezes eu a esquecia, mas logo depois, então, eu a podia sentir novamente, e beber de seu perfume... Euterpe tocava sua flauta ao longe, e o amor se enchia no meu peito... de repente tudo cessara, era o resto só silencio, um silencio húmido e morno, e enfrente a mim estava a luz da vida. Ela então me abraçou... e então a vida se fez lógica para mim... Então meu dia se banhou de alegria, e minha noite se fez dia... Como posso não crer em ti? Oh grande luz celeste?

sábado, 1 de março de 2008

Frases da Tia Clarice

Minha vida não tem sentido apenas humano, é muito maior - é tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido. Da organização geral que era maior que eu, eu só havia até então percebido os fragmentos. Mas agora, eu era muito menos que humana - e só realizaria o meu destino especificamente humano se me entregasse, como estava me entregando, ao que já não era eu, ao que já é inumano. E entregando-me com a confiança de pertencer ao desconhecido. Pois só posso rezar ao que não conheço. E só posso amar à evidência desconhecida das coisas, e só me posso agregar ao que desconheço. Só esta é que é uma entrega real."
Clarice Lispector(A descoberta do mundo)

"Respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você -- respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você -- pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita -- não copie uma pessoa ideal, copie você mesma -- é esse o único meio de viver." (Clarice Lispector)

Ao virar a esquina

Eu estou morto. De repente, viro uma esquina, dou-me com a tua imagem, camisa rosa, ombros largos, passos perdidos pelo peso do mundo, cabelos castanhos claros, algo em você me atrai, talvez porque você seja tão um pouco de mim... Ando, seus passos ruidosamente tocam o chão a minha frente, ainda não me percebeste, te amo, me és na medida em que te sou, cada pisada meu coração abala, arrasto meus pés, na esperança de que me vejas, não me vês. Equiparamos-nos, lado a lado, apenas eu e você, a rua está vazia, o céu está belo, nossos passos ritmam juntos, espero que me toques, com apenas um dedo te entregaria toda minh’alma. Desvio da arvore a minha direita, passo e sigo reto, não olho para você, não assim tão perto, tenho medo, és como o Sol, se olhasse fixamente simplesmente te perderia, e te perder é um homicídio de mim mesmo.
Viro a esquina, meu único pensamento é o fato de que estás atrás de mim, é essa minha única razão de ser no momento, é por isso que vivi aquele segundo.

Paro no ponto de ônibus, sou de todo espera, venha e me dê a vida! Quando vi seus passos vi os meus então, tu és tão parecido comigo, que poderia me entregar de todo e sem barreiras para tu que simplesmente desconheço...
Sou uma garrafa vazia, tu também (percebi no momento que te vi, andas como eu desse modo que só os vazios andam) nós dois somos garrafas vazias, se nos juntássemos não surgiria vinho dentro de nós, seriamos apenas duas garrafas vazias, mas a espera já não seria tão só.
Tu passas e me olhas do outro lado da rua, do outro lado da vida, que mundo louco é esse? Se aproxime, sei que me deseja como te desejo, te olho, meus olhos não me obedecem, estão presos em ti, mas tu também olhas-me, nos entregamos, nosso olhar é tudo que existe, e que existiu, tu sorri, eu não posso sorrir, ainda que me faças feliz, com apenas um olhar me entrega a felicidade que muitos com anos não me proporcionaram, não posso sorrir... Ainda estou meio assustado com todo esse mundo, que me surpreende dias após dia, e ainda estou a espera de algo que não sei o que é, e quem espera algo que não sabe o que é acaba nunca ganhando coisa alguma pois não se apega a nada com medo de que não seja aquilo que espera... Mas tu, te conheço de outra vida? Porque me abalas?

Não pude sorrir pra ti, pois estou vivo, tu me deste a vida com os seus vívidos olhos verdes e com teus passos desalinhados, então se estou vivo sofro, pois este mundo não é meu lugar, sou um pé de alface por entre um espinheiro, e se o vento soprar me machuco inteiro. Talvez possas ter sentido que te amei, e que te correspondi, pois minha alegria era sua também, naquele momento, que foi breve, mas mais valioso que muito dos meus dias.
Tu passas, estou imóvel, sou toda minha disritmia, sou apenas aquilo que causas em mim, meu viver é dedicado a ti. Entras por uma porta, e o mundo cai de volta em mim... Agora estou vivo, se estou vivo estou infeliz, se estou infeliz estou incompleto, se estou incompleto, te espero... Porque tudo aquilo que me acontece de bom costuma me deixar saudade, pois sou de um vazio tão profundo, que quando me preparo para a plenitude, tudo já esta perdido na escuridão de meu interior, e então só me resta procurar por novas coisas para tentar ser feliz. Ainda tenho fé, me deixaste isso, a fé, tenho a fé, a fé que um dia haverá luz até no mais escuro do meu ser, pois já dizia a Grande Mulher "Imoral mesmo é desistir de si mesmo...", logo, não desisto, essa loucura todo é o meu meio de existir, ainda que torto é uma existencia, e eu tenho que levar adiante, pois todo este escuro depende unicamente de mim para brotar luz...
Ainda que seja um tolo ao dizer isso, direi, pois é o mais fundo dos meus sentires agora: "Amo tudo o que tenho, porque tenho tudo o que preciso pra viver, eu não tenho tudo o que amo, pois, ainda me falta você." A intensidade do efêmero ainda me espanta e arrepia...