Sobre o blog (e mim)...

Um garoto. Uma vida. Uma certeza. Muitas duvidas. Um blog. É isso que de repente se conflue numa desarmonia harmoniosa e vira isso que vês... as palavras são ditas até que cheguemos a uma barreira, a barreira alem do qual não existem mais palavras, apenas nós, Deus e o que é sentido...

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sábado, 1 de março de 2008

Ao virar a esquina

Eu estou morto. De repente, viro uma esquina, dou-me com a tua imagem, camisa rosa, ombros largos, passos perdidos pelo peso do mundo, cabelos castanhos claros, algo em você me atrai, talvez porque você seja tão um pouco de mim... Ando, seus passos ruidosamente tocam o chão a minha frente, ainda não me percebeste, te amo, me és na medida em que te sou, cada pisada meu coração abala, arrasto meus pés, na esperança de que me vejas, não me vês. Equiparamos-nos, lado a lado, apenas eu e você, a rua está vazia, o céu está belo, nossos passos ritmam juntos, espero que me toques, com apenas um dedo te entregaria toda minh’alma. Desvio da arvore a minha direita, passo e sigo reto, não olho para você, não assim tão perto, tenho medo, és como o Sol, se olhasse fixamente simplesmente te perderia, e te perder é um homicídio de mim mesmo.
Viro a esquina, meu único pensamento é o fato de que estás atrás de mim, é essa minha única razão de ser no momento, é por isso que vivi aquele segundo.

Paro no ponto de ônibus, sou de todo espera, venha e me dê a vida! Quando vi seus passos vi os meus então, tu és tão parecido comigo, que poderia me entregar de todo e sem barreiras para tu que simplesmente desconheço...
Sou uma garrafa vazia, tu também (percebi no momento que te vi, andas como eu desse modo que só os vazios andam) nós dois somos garrafas vazias, se nos juntássemos não surgiria vinho dentro de nós, seriamos apenas duas garrafas vazias, mas a espera já não seria tão só.
Tu passas e me olhas do outro lado da rua, do outro lado da vida, que mundo louco é esse? Se aproxime, sei que me deseja como te desejo, te olho, meus olhos não me obedecem, estão presos em ti, mas tu também olhas-me, nos entregamos, nosso olhar é tudo que existe, e que existiu, tu sorri, eu não posso sorrir, ainda que me faças feliz, com apenas um olhar me entrega a felicidade que muitos com anos não me proporcionaram, não posso sorrir... Ainda estou meio assustado com todo esse mundo, que me surpreende dias após dia, e ainda estou a espera de algo que não sei o que é, e quem espera algo que não sabe o que é acaba nunca ganhando coisa alguma pois não se apega a nada com medo de que não seja aquilo que espera... Mas tu, te conheço de outra vida? Porque me abalas?

Não pude sorrir pra ti, pois estou vivo, tu me deste a vida com os seus vívidos olhos verdes e com teus passos desalinhados, então se estou vivo sofro, pois este mundo não é meu lugar, sou um pé de alface por entre um espinheiro, e se o vento soprar me machuco inteiro. Talvez possas ter sentido que te amei, e que te correspondi, pois minha alegria era sua também, naquele momento, que foi breve, mas mais valioso que muito dos meus dias.
Tu passas, estou imóvel, sou toda minha disritmia, sou apenas aquilo que causas em mim, meu viver é dedicado a ti. Entras por uma porta, e o mundo cai de volta em mim... Agora estou vivo, se estou vivo estou infeliz, se estou infeliz estou incompleto, se estou incompleto, te espero... Porque tudo aquilo que me acontece de bom costuma me deixar saudade, pois sou de um vazio tão profundo, que quando me preparo para a plenitude, tudo já esta perdido na escuridão de meu interior, e então só me resta procurar por novas coisas para tentar ser feliz. Ainda tenho fé, me deixaste isso, a fé, tenho a fé, a fé que um dia haverá luz até no mais escuro do meu ser, pois já dizia a Grande Mulher "Imoral mesmo é desistir de si mesmo...", logo, não desisto, essa loucura todo é o meu meio de existir, ainda que torto é uma existencia, e eu tenho que levar adiante, pois todo este escuro depende unicamente de mim para brotar luz...
Ainda que seja um tolo ao dizer isso, direi, pois é o mais fundo dos meus sentires agora: "Amo tudo o que tenho, porque tenho tudo o que preciso pra viver, eu não tenho tudo o que amo, pois, ainda me falta você." A intensidade do efêmero ainda me espanta e arrepia...

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