Sobre o blog (e mim)...

Um garoto. Uma vida. Uma certeza. Muitas duvidas. Um blog. É isso que de repente se conflue numa desarmonia harmoniosa e vira isso que vês... as palavras são ditas até que cheguemos a uma barreira, a barreira alem do qual não existem mais palavras, apenas nós, Deus e o que é sentido...

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terça-feira, 25 de dezembro de 2007

O vazio da noite.

A história que conto começa assim... Um menino cai no chão, já todo ferido, toma um tiro no abdome, o atirador sai correndo, ele começa a vomitar sangue, eu assisto tudo assustado da calçada e sem ser notado.
O que fazer? Após me recompor um pouco penso. Corro até sua direção, deito-o em meu colo, estamos na calçada. Ele está urrando de dor, e eu de desespero. Você se preocupa contigo mesmo, eu me preocupo comigo e contigo, se a posição de vitima é ingrata, a de auxiliador é indigna. Olho em volta, a rua é vazia, o vento sopra em suave brisa, estamos a sós, eu, você e a dor.
Nossas mãos se tocam, sinto seu corpo quente, seus olhos refletem a lua, e os meus lacrimejam ao ver-te, e de repente, não tenho mais em minhas mãos um estranho, tenho um filho, pressiono sua cabeça contra meu peito, seu corpo está quente, o meu coração volta a bater, algo que não o sentia fazer há muito, que cantiga eu te cantei? Não a lembro! Sim minha cantiga, a cantiga que te embalou naquele momento, e que tentava te apaziguar, foi um grito, o mais forte grito que já dei, o grito que uma mãe dá ao ver seu filho morrendo, com essa música, feia mas sincera, eu te amei, eu te embalei.
Meu filho, não morra! Quero te conhecer! Quero saber por que és tão quente! Sua pele já ficava tão pálida quanto a Lua, seus olhos brilhavam mais e mais, eu temia perder algo que nunca tive, eu temia te perder, porque a nossa dor era única, sua dor era física, a certeza da morte, a minha era espiritual, a certeza da morte. Se você morresse, eu então deveria crer que a morte existia, e que não era algo distante, que só chega na casa do vizinho.
Então segurei suas mãos juntas a minha, e me encostei a ti, para sentir seu coração, o seu coração se debatia agarrando-se na mais ínfima esperança de vida, meu interior era oco, oco e silencioso, o que há dentro de mim? Não tenho nada a bater dentro de mim.
Eu estou desesperado, um garoto morre na minha frente, em meus braços, e nada poço fazer, um garoto está morto dentro de mim, e nada faço. Como posso te salvar? Como posso viver? Meus lábios tocam os teus...
E no meio de tanta confusão, seu sangue jorrava caindo às gotas em minha boca, e dela saindo em compassadas ânsias. Não temia a tu porque não sei quem és, mas sei que não és pior do que eu posso ser, pois, bem ao certo, não sei o que eu posso ser, já que nem sei bem o que sou. No meio de tão negra noite, eu temia a mim, que sou sempre um mistério a me desvendar, uma curva que nunca acaba. Não temo mais os estranhos, pois, aos poucos virei também um deles.
Meu rosto está a um palmo de distancia do seu, minha boca foi lavada no sangue do cordeiro, cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, leve embora meu vazio, lava-me de minha angustia. Qualquer respiração sua eu perceberia, mas, não respiras, perdido é já, lavo seu rosto em minhas lagrimas, seu calor se exuda aos poucos. Levanto, e enquanto jazes no chão, vou embora, seja eu o que for, seja tu o que eras... Pois o instante já havia passado, e a vida não acabara nele.

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